1978
Suspirou olhando a sua volta. Paredes brancas, móveis de cores claras e avisos de silêncio por todos os lados.
Apenas a aparência do local já o assustava e ele esperava que os próximos três meses passassem num segundo. Não sabia quanto tempo poderia permanecer dentro daquele lugar sem perder a cabeça.
E 5 horas por dia como voluntário não ajudava em nada em manter-se afastado do ambiente nada hostil do Hospital Psiquiátrico de Little Lever.
Perguntou-se novamente se aquilo era realmente necessário, mas então ouviu a voz do juiz repetindo a sentença. Maldita sentença.
Se o ‘crime’ cometido fosse grave ele teria aceitado a sentença sem nenhum problema, sem reclamar. Entretanto, o que ele fizera não justificava trabalho voluntário num lugar que ele odiava tanto.
“Vamos ver se assim você se endireita pelo menos” ouviu a voz áspera do pai responder quando reclamou sobre o que teria que fazer.
Ele só havia matado algumas aulas, roubado umas cervejas, pichado alguns muros. Não era lá grande coisa. Todos os garotos de sua idade faziam o mesmo, mas só ele tinha se ferrado dessa vez.
“Oh, , você já chegou” uma voz despertou-o de suas lembranças e ele sorriu para a senhora Marple.
“Olá senhora Marple” respondeu como a boa educação mandava. Ele sabia ser educado quando queria, e interessava.
“Bonito dia, não?” comentou ela enquanto o guiava em direção a uma sala que ele supôs ser a direção do Hospital.
“Sim. São raros os dias de sol ultimamente” respondeu ele sentando-se na cadeira que ela indicou.
“Vai ser um prazer tê-lo aqui com nós nos próximos três meses. Tenho certeza que você vai adorar” Não tenho tanta certeza pensou o garoto, porém apenas sorriu gentilmente para a adorável senhora que conhecia desde os seus primeiros anos de vida. “Agora, vamos ao que interessa. Nesses primeiros dias, até você se acostumar com o ambiente e com as tarefas, você apenas irá acompanhar um de nossos ajudantes. E quando se sentir preparado poderá assumir algumas atividades de maior responsabilidade. De acordo?” perguntou Marple sorrindo afetuosamente para o garoto.
“Claro senhora Marple” respondeu ele.
“Vem, , vou te apresentar para o ajudante que você irá acompanhar nessas primeiras semanas” falou a senhora caminhando até a porta. a acompanhou em silêncio, perguntando-se se algum dia conseguiria acostumar-se com aquele ambiente tão... assustador?
“, esse é o . Vocês devem se conhecer, não?” perguntou a senhora fazendo com que Thomas desviasse o olhar do novo quarto para o garoto que ali se encontrava. Ele era um pouco mais alto que , e aparentava ser um pouco mais velho do que em realidade era.
“Oi ” cumprimentou o outro e apenas sorriu. Com certeza se conheciam, da escola. Porém Tom ainda não se sentia confortável o suficiente para sair conversando com as pessoas.
“Bom, eu deixo os dois aqui. , você o ajudará, certo?” garantiu a senhora.
“Claro Marple, sem nenhum problema” respondeu o maior sorrindo e virando-se para “Nunca te imaginei aqui” comentou.
“Nem eu” respondeu .
“Você vai acabar gostando daqui, vai ver” falou, sabendo o que se passava pela cabeça do menor.
“Quem sabe” finalizou a conversa. olhou contrariado para o garoto. Era tão difícil assim tornar a convivência agradável?
“Certo. Nós teremos seis pacientes por dia. Não é nada demais, apenas garantir que eles não se machuquem ou machuquem outros pacientes, tomem seus medicamentos no horário. E algumas vezes você terá que escutá-los por alguns minutos. Não fale nada, apenas escute. E só diga algo se te fizerem uma pergunta. Mas cuidado com as palavras” terminou de explicar e assentiu.
“Vai ser um longo dia” sussurrou para si mesmo, mas não baixo o suficiente. riu do garoto lembrando-se de si mesmo quando teve que ir pela clinica pela primeira vez, dois anos atrás, na mesma situação que o menor.
Era engraçado como ele odiou aquele lugar no segundo que pôs os pés ali, mas não o foi capaz de deixar quando os três meses se cumpriram.
“Você vai se surpreender com o quão rápido esses três meses vão passar” comentou entregando uma lista a com os nomes e os quartos de cada paciência, incluindo informações básicas, como motivo da internação, horário dos remédios e horário de visitas.
riu ao constatar que todos os pacientes de quem deveria cuidar eram de sua faixa etária, porém seu olhar foi atraído para o último nome na lista: . A única garota entre os seis pacientes.
Apontou o nome, fazendo uma linha reta com intenção de buscar pela doença. Psicopatia. Max observou sua reação. Ou melhor falta de reação. apenas deu de ombro. Não era como se ele estivesse surpreso, afinal de contas, eles estavam em um Hospital Psiquiátrico.
“Essa dá trabalho.” Comentou começando a caminhar em direção ao quarto 504.
“Não o dão todos?” perguntou fazendo o recém amigo rir.
“Ela é.... especial” respondeu divertido. deu de ombros. “Bom dia Danny” falou adentrando-o ao quarto e sendo seguido por Tom.
Daniel era moreno de olhos castanhos e se via em estado alerta, porém com um visível cansaço.
“Quem é ele?” perguntou apontando na direção de assim que seus olhos capturaram a nova figura. apressou-se a apresentar-se, mas o interrompeu.
“Um amigo meu. O nome dele é . Ele está aqui pra te proteger também, como eu” falou e os olhos do garoto moreno ainda estiveram analisando por um minuto, até que o mesmo sorriu e estendeu a mão.
“Meu nome é Daniel, mas pode me chamar de Danny. Estou aqui porque o governo Nazista está me procurando. Toma cuidado” falou por enfim. teve que segurar a risada ao ouvir o menino, mas não precisou buscar sua ficha para saber que o menino sofria de Esquizofrenia.
“Meu nome é , mas pode chamar de . E como o disse, estamos aqui pra te proteger” falou, pegando o jogo rapidamente.
“Teve uma noite muito cansativa, foi Danny?” Max perguntou enquanto pegava os remédios no armário. apenas o observava, tentando entender como fazer tudo isso. Afinal de contas, seriam três meses que ele teria que fazer as coisas.
“Você não escutou as bombas?” perguntou o menino e sorriu para ele.
“Não Danny, conte-me sobre isso” falou colocando uma cadeira ao lado dele.
imitou o maior e sentou-se a beira da cama para escutar a história que Daniel contaria.
E um por um foram passando pelos quartos, sendo apresentado a cada um de seus novos pacientes: Matthew, bipolaridade. James, depressão. E David, Síndrome de Burnout. E por fim, .
O dia não pareceu demorar tanto como ele esperava, uma vez que havia emergido nas mais diversas histórias de seus novos pacientes.
Quando se deu conta, faltavam pouco mais de meia hora para que seu turno acabasse. Estava sentado na sala de jogos apenas observando enquanto e Daniel conversavam. A garota totalmente indiferente ao obvio desconforto do menino.
meneou a cabeça para o comportamento dela, até lembrar-se que não era exatamente uma escolha.
Observou-os por mais uns minutos.
“, pode vir um segundo aqui?” Marple perguntou abrindo a porta da sala. Ele olhou para , que assentiu com a cabeça, e então deixou a sala.
Sentiu um incomodo, como se alguém o estivesse observando, porém apenas balançou a cabeça.
O lugar realmente o estava afetando.
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